Felipe Kaizer
São Paulo, Maio de 2024
Plin Plin (Felipe Barsuglia), p. 22-25.

Depois de sair do seu ateliê, lembrei da capa de um disco do Frank Zappa, Does Humor Belong in Music?. É de um sujeito chamado Cal Schenkel. O disco é de 1986, mas a capa, de 1995.
Does Humor Belong in Painting?
Pelo visto, o mesmo sujeito fez a capa do Hot Rats. Todo mundo acha que é o Zappa saindo do buraco, mas é uma mina, Miss Christine of The GTOs.
Enfim, não era sobre isso que eu queria falar, mas tem a ver.
Antes disso, uma fala do Oliver Sacks, sobre a síndrome de Charles Bonnet:
[Uma] paciente minha tinha um tipo diferente de alucinação. Era uma mulher que não tinha problemas nos olhos, mas nas partes visuais do cérebro. Um pequeno tumor no córtex occipital. E, acima de tudo, ela via cartuns. E esses cartuns eram transparentes e cobriam metade do campo visual, como uma tela. Ela via especialmente cartuns do Caco, o Sapo. Bem, eu não assisto Vila Sésamo, mas ela fez questão de dizer: “Por quê o Caco?”. Ela disse: “Caco, o Sapo, não significa nada para mim.”
Bem, o que está acontecendo com essas pessoas? Como médico, tenho que tentar definir o que está acontecendo e tranquilizar as pessoas, especialmente tranquilizá-las de que não estão ficando loucas. […]. Rostos, e às vezes rostos deformados, são a coisa mais comum nessas alucinações. E uma das segundas coisas mais comuns são cartuns. Então, o que está acontecendo? […].
Quando as pessoas têm alucinações simples e geométricas, o córtex visual primário é ativado. Essa é a parte do cérebro que percebe bordas e padrões. Você não forma imagens com seu córtex visual primário. Quando são formadas imagens, uma região superior do córtex visual está envolvida, no lobo temporal. E, em particular, uma área do lobo temporal chamada de giro fusiforme. É sabido que se as pessoas tiverem danos no giro fusiforme, elas podem perder a capacidade de reconhecer rostos. Mas se houver uma atividade anormal no giro fusiforme, elas podem alucinar rostos, e é exatamente isso que você encontra em algumas dessas pessoas. Há uma área na parte frontal desse giro onde os dentes e os olhos são representados, e essa parte é ativada quando as pessoas têm alucinações deformadas. Há outra parte do cérebro que é especialmente ativada quando se vê cartuns. É ativada quando se reconhece cartuns, quando se desenha cartuns e quando se alucina com eles.
Quero falar sobre o métier paulistano da arte contemporânea, que conheci quando cheguei na cidade em 2009 e que hoje você habita.
É tudo sobre dinheiro. Mesmo fama e poder são medidos em cifras, o que é típico dos nouveaux riches. É por dinheiro também que eu, você e todo mundo que nós conhecemos viemos parar aqui.
Não surpreende que galeristas, curadores, gente dos museus e liaisons (espécie recentemente aclimatada) enxerguem tudo por esse prisma, mas que os artistas não se importem mais com a arte, com a experiência ou como que se queira chamar. Artistas, conheci alguns de perto, e há exceções, claro, mas não se trata de casos individuais. Digo – comprando o risco da generalização indevida – que se trata de uma dinâmica social que afeta mais ou menos a todos.
Desde o Lula 1, houve uma abertura de perspectiva e uma maior mobilidade social. Ao mesmo tempo, o mercado de arte começava a esquentar. Cheguei em São Paulo no ano seguinte à Bienal do Vazio. Existia um agito e a impressão de que o futuro prometia. Também, eu tinha vinte e cinco anos.
Depois veio a sequência: dois mil e crazy, dois mil e catarse, dois mil e crise. Fecharam-se as portas, e, quando houve o golpe, já vivíamos tempos plenamente aristocráticos. Comentava com amigos o quanto pareciamos presos em um romance do século XIX, vivendo problemas de etiqueta. O liaison, herdeiro do marchands mercier, é apenas mais uma personagem dessa comédia. Como escreveram na Enciclopédia, marchands de tout et faiseurs de rien.
O liaison não trabalha para os artistas, isso é um equívoco. O liaison trabalha de facto para o dinheiro. Sendo mais preciso, para o capital.
Triste é ver a situação dos artistas, especialmente os mais novos. A maioria mal percebe sua condição de força de trabalho. Com o domínio total do mercado especulativo e o derretimento da figura do curador – que, por sua vez, já havia suplantando o crítico –, perde-se grande parte do sentido dessa imensa produção. Basta ter em vista o anseio dos mais novos de serem representados o mais rápido possível.
Exposições coletivas organizadas pelos próprios artistas rarearam, o que é lógico, considerando que agora cada um concorre com todos os outros. A inveja e o ressentimento, especialidade dos arrivistas, são agora a norma.
É óbvio que existem questões práticas, sobretudo para os recém-chegados. O problema é não ter nenhuma outra preocupação, nenhum outro interesse. Autoexplorados e desorganizados, os artistas não oferecem qualquer resistência à especulação. Sem o seu posicionamento, não pode haver uma discussão artística de verdade. Não vejo muito sentido em escrever sobre arte contemporânea. (Não sei muito bem o que estou fazendo com este texto.) Imagine o volume de trabalhos esquecidos em poucos anos. Mas não é sobre isso que eu queria falar.
É um argumento muito simples: falta humor nesta cidade. Mais uma generalização indevida, dessa vez, porém, surgida da minha vivência. Se você zoa um paulistano na amizade – querendo com isso indicar uma disposição para a intimidade –, o paulistano de fato se ofende. É gente que se leva muito a sério. Não à toa, me aproximei primeiro dos recifenses e dos cearenses de Fortaleza.
Lembrei de um texto da Nathalia Calmon, amiga do Rio, sobre um amigo suicida – texto, para todos os efeitos, incompreensível nesta cidade. Abaixo, um trecho que consegui recuperar de 2008:
Há muito tempo eu me rendi ao disfarce do CK. E quero comprar uma sapatilha à la indiana de veludo carmim, pra ficar parecendo uma Dorothy do Oriente.
Só estilo.
O suicídio como obra de arte. Perdi um amigo de infância porque ele resolveu se tacar de um ponto turístico devidamente alto dessa cidade, abaixo.
Um suicídio lindo.
Depois de ler, escrevi a ela:
O contraste entre o significante e o insignificante […] só parece possível com o deboche. Nesses momentos as coisas voltam a fazer sentido […].
Essa passagem é memorável. […] é um epitáfio.
Eu tinha em mente o deboche como forma de homenagem.
Ela me respondeu:
O deboche sou eu. É a minha graça. O que pode ter um lado ruim. As pessoas às vezes não percebem deboche e levam a sério. Outras acham desrespeito, ou simplesmente parecem ficar como que ofendidas pelo sarcasmo. Ou simplesmente acham pueril. Como se eu estivesse querendo bancar a engraçadinha. Enquanto meu deboche, na verdade, você sabe, é só uma maneira de não ser definitiva. E quem nos cobra definição, em geral, são as mesmas pessoas que dizem que não existem verdades, apenas interpretações. O que me parece profundamente irritante.
Era isso o que eu queria falar.