
Jovens artistas, futuros editores! Amigos das artes e das letras! Vinde me ouvir; a mim, que sou como vós, herdeiros e tributários das palavras e das imagens d’outrora.
Estes são tempos miseráveis: nos quais tem valor somente aquilo que pesa ou brilha; nos quais chamais de belo o mero acúmulo de atributos. Estes são tempos miseráveis: nos quais o presente perde sua consistência a cada dia junto com o futuro.
Caístes agora na desesperança: confiais apenas naquilo que está ao alcance do vosso toque ou da vossa vista; virastes reféns dos próprios olhos e das próprias mãos. Isso tudo, porém, que hoje vós adorais, são migalhas amanhã; até o presente mais rico, nada conserva até amanhã. Como se diz: somos todos miseráveis pela manhã. Ao fim e ao cabo, a traça e o ladrão vêm cobrar a sua parte por direito.
Digo-vos, portanto: confiai no que não se vê, confiai no que não se toca. Fazei lá vossos investimentos; ajuntai no além vosso tesouro, como está escrito. Confiai no Imaterial.
Pois desaprendestes a tomar parte no incerto; a vos apoiar sobre o intangível; a vos ver face a face com o invísivel. Esquecestes-vos que nada vale o quanto pesa e ninguém o quanto expõe.
Hoje contais os trocados de uma relação e doais de acordo com o ganho; logo, não vos admireis se vossos líderes convocam a multidão a enaltecer suas próprias figuras; não vos admireis do lugar que ocupais assim no palco ou na plateia, viciosamente. Tanto orgulho vos tornastes apenas um material para vós mesmos; vos tornastes o Material cujo único propósito é o de ser manipulado.
E se me perguntais: “como fazemos para sair dessa situação?”, eu vos repito: confiai no Imaterial. Ele vos livrará da simples condição de matéria. Ele vos tornará livres uns nos outros; vos tornará cegos para a inveja e surdos para a maledicência. Com Ele encontrareis abrigo no aberto. Dele recebereis de graça se abrirdes mão.
Aprendei logo a reconhecê-Lo: Ele é o passe, independente de cada passador. É o que vive na matéria e sobrevive ao seu desaparecimento, noutra matéria dali em diante. É o movimento que atravessa as gerações, livre dos estágios particulares do seu desenvolvimento. É o corte, que nem ao cortante nem ao cortado pertence. É o branco nos vossos cabelos. É o vão entre as vossas mesas.
Confiai Nele, que de súbito ressurge longe donde foi visto pela última vez. Confiai Nele, que não faz diferença entre amigos e inimigos; que habita cada aperto de mão, cada troca de olhares, cada aceno, cada aproximação. Nele, cuja trama ninguém conhece de antemão, cujos planos nascem na escuridão. Nele, que corre sobre vossa cabeça desatenta; que venta e revolve vossa papelada.
“E o que devemos fazer para encontrá-Lo?”, perguntais-me a seguir. E eu vos digo: o que já fazeis, mas sem a pretensão atrelada, posto que ela vos afasta do Imaterial; o que já fazeis, mas não em benefício próprio. Escrevei, desenhai, imprimi, publicai, mas em benefício do alheio, pois, como já se disse: “Há de se publicar para além das vaidades”.
Nunca trabalheis para vós mesmos, portanto; pois não tendes a medida do vosso valor. O fruto do vosso trabalho não vos pertence, mas a Ele, que o dá a quem O quer. Em verdade, são vossos sucedâneos, Seus eleitos, os juízes do vosso esforço. Doutro modo não se contabiliza com o Imaterial: lembrai a toda hora que Sua conta fecha no futuro.
Não confieis em vós mesmos, portanto; é no Imaterial que devei confiar. Quem conta consigo sempre se decepciona no fim do dia: ninguém basta a si mesmo ou ao seu próximo. Não há solução no grupo ou no indivíduo, só no público; só na indeterminação, que é o traço do Imaterial. Confiai Nele, que constitui a rede onde tudo se apoia; Nele, que é a chama que tudo anima e consome; Nele, que é o Último Garantidor e o Destruidor.
Confiai no Imaterial, que circula entre vós, e Ele dará uma forma justa aos vossos anseios.