
Esta é A profecia da linha d’água, que separa as obras mortas das obras vivas, revelada a Felipe Kaizer e Luiza Crosman entre novembro de 2014 e janeiro de 2015.
A presente edição consolida o texto que serviu de roteiro para o áudio que integra a obra homônima de Crosman, vista pela primeira vez entre janeiro e março de 2015 na exposição SÍTIO.
A exposição ocorreu na nova sede da organização multidisciplinar Comuna, no número 57 da Rua Frei Caneca no Rio de Janeiro, antes da sua inauguração.
Estive aqui à espera de alguma coisa que se me apresentasse, e eis que algo se aproxima; algo se descortina. Como um velho amigo que acena; como o gesto do inimigo; como a meia palavra dita por um amante, algo assim se apresenta (a mim). E eu, pobre-de-pensamento, trocando tempo por dinheiro, estive aqui à espera disso que trago e compartilho, de graça, sem recompensamento.
As palavras-chave do desespero. Descendo a rua dos desencantos. Perdendo dias até o prazo. Preparando um prato sem motivação. Enchendo a boca de uma garrafa. Deitando, grave. Garoando. Perdendo a chave. Sem muita conversa, sem muita estória. Retoma a fila longa, retoma o eixo. Frases pequenas que demoram a fazer sentido.
Um fio esticando uma distância muito grande não pode não pender. O peso desse fio corresponde ao que ele tem de melhor, mas só se bem esticado, bem amarrado. Algumas pessoas não têm muito a dizer, elas só se aquecem. Bebem e comem juntas todos os dias, à noite em casa, se esquecem dos próprios nomes.
Mas chegará um tempo,
quando
finalmente todos os edifícios se alinharem,
e as cores além do prata desaparecerem da face da Terra;
e as luzes da cidade houverem sobrepujado as estrelas do céu em sua plena luminosidade;
e o homem for técnica para o próprio homem,
e as unidades fundamentais do mundo estivem medidas;
e a força das marés couber num esquema antecipado,
e chamarmos os terremotos por nome e sobrenome;
e o horizonte não for mais a mesma linha no olhar de cada um;
e a sua maneira cada um dispor do horizonte.
Nosso será um mundo onde
todas as disciplinas terão encontrado seu lugar numa mesma grade,
e os filhos dos homens irão se dispor a suar e a salgar os estudos de bom grado;
e os canteiros estarão devidamente mapeados,
e as disputas irão compor uma lista no cartório
e os marginais serão o justo produto das estatísticas;
estastísticas estas que flutuarão ao sabor da publicidade.
e teremos mais formas que nomes para essas formas;
e códigos adentrarão nosso vocabulário;
e as formas desaparecidas constarão num livro;
e o livro não estará em lugar algum, mas em todo lugar;
e o livro terá um nome estrangeiro para os estrangeiros;
e nele ninguém irá se reconhecer, nem a sua própria língua;
e o livro terá assim todas as línguas;
E a língua será a língua do desejo; da busca pela eternidade mundana. E ninguém mais conhecerá tal língua, posto que haverá uma nova forma para cada instante de vida passado: uma letra para cada início de reza e um som para cada suspiro de inveja.
A vida será reservada àqueles que não têm desejos.
A vida – automatizada e virtualizada – se tornará irreconhecível.
E a vida será por fim muito parecida com a morte.
Estive aqui à espera de alguma coisa que se me apresentasse, e eis que… algo se aproxima, algo se descortina. Um aceno, um gesto, uma meia palavra; assim algo se apresenta a mim, cuidadosamente. Vazio, eu, que estive aqui, abandonado pelas palavras, vi que
a reforma tão esperada será finda;
e o que era mofo terá a cor do novo;
e, sob o chão, abaixo da rua,
a música esquecida será ouvida novamente
e encherá os espíritos de satisfação,
e os moços terão mais vida com o passar dos dias,
porque tudo será a mais e não a menos.
Logo chegará o dia da abertura,
e um tremor se alastrará pela superfície da Terra;
e tudo que é fugaz esconderá sua face
no dia em que a novidade vier cobrar o seu sacrifício;
pois quando
eventos improváveis até então se avolumarem;
uma outra raça, nascida dos escombros, se erguerá,
e será a insígnia de uma nova era,
que terá como centro uma rua velha;
e, o que era sujo e poeirento, se sacudirá.
Será então que
a Nau, hoje vazia, se encherá duma gente nova,
e seus andares estarão repletos de uma matéria infinitamente mais leve;
e alguns reconhecerão a prova
de tornar a matéria densa sem deixá-la pesar,
(tal será a circunstância na qual sábios e sabidos navegarão latitudes diferentes e donde emergirão assombrados e assombrosos).
E ao homem e à mulher será dada a escolha entre intuir ou calcular
percorrer ou se adiantar,
pois haverá dados e datas
postas permanentemente sob ataque
e não constará em registro apenas aquele que não buscar a si próprio,
assim como o olhar privilegiado
não enxergará a si mesmo,
apesar de ter tudo sob a vista
e na Nau tudo irá se mover
como o vento ou a areia movediça,
sem que a Nau saia do lugar.
Será então que
a Nau irá transbordar de dentro para fora,
e ocorrerão, naturalmente, afogamentos.
Nada a essa altura, porém, deverá ser julgado,
pois a travessia por mercados mais arriscados
será o custo da expansão do império.
e o bonde dos vivos seguirá viagem,
tendo se livrado do peso morto;
daquilo que não usaram há pelo menos um ano
tendo posto longe da vista aquilo de que não se espera mesmo muito.
“Feliz Ano-novo!”, dirão os passageiros,
saudando a bandeira presa no carro-chefe
antes que a Nau encalhe no seu destino anunciado.
Como o pescador que foi buscar sua pesca, e puxando a rede, viu que na rede nada havia que se aproveitasse. A rede, portanto, não adiantou a vida do pescador. A rede é feita só de gente, e não de peixe. Disse-lhe o homem que se aproximou: “Vou fazê-lo pescador de gente”. Mas o pescador tem fome é de peixe. Então por que essa gente entra na rede? Lá entram e se sentam, falando enquanto esperam pelo arrasto. E o pescador vem buscá-las, desavisado de que não se trata de peixe, mas de gente, de carne e osso, cada um atendendo por um nome. Foi o que eu vi: o pescador puxou a rede do mar, mas olhou com desgosto para toda essa gente conectada. Expulsou, a seguir, de volta para as águas os peixes-homens… De volta para o mar, caídos dessa vez para dentro de uma rede mais profunda.
Não precisaria ser assim, se ao menos eu me fizesse Ouvido… mas fui apenas seus Olhos, Mãos e Voz.
Contudo, o parto não se dará sem suas dores, pois assim o exigem as leis da travessia da paixão: que o caminho reto seja tão longo quanto o sinuoso; que os ossos empurrem a carne e que os tendões se retesem; que as roupas caduquem; que a língua ganhe outra inflexão; que a postura se retifique; que os cabelos caiam, como caem os do leão; que cresçam novos dentes, como crescem os do tubarão; que a família se multiplique e se espalhe; que os orgãos se diferenciem e se especializem; que as funções se distribuam; que a vista, aliada ao discernimento, divise entre o que há de se passar em breve e o que é mera obra da boataria.
e quando
a geração vindoura tiver chegado ao seu zênite,
e forem sabidos os seus objetivos;
e conhecidas de antemão as suas proezas;
e os jovens se compararem aos poderosos desse mundo,
que são como as estrelas decaídas que insistem em queimar;
e formas distintas coincidirem por fadiga da imaginação,
e o sucesso for um balde que transborda;
e a porta inchada for maior que o portal;
e a música perder os seus intervalos,
e o alimento for consumido antes do preparo;
e ninguém mais atentar para o risco das escadas;
e tudo tiver a forma do conforto e a face do conhecido;
e falarmos todos de novo a mesma língua.
O Sacrifício virá recolher o seu imposto.
Para aqueles que O desconhecem, Ele se apresentará disforme como uma catástrofe, prestes a engolir o que se contrapõe a ele. Só se salvarão os vulneráveis por escolha própria.
Entre os demais haverá uma grande contenda,
e amigo estranhará amigo,
e se desmanchará essa casa,
e porão abaixo as suas paredes,
e arrancarão as madeiras do transepto,
e lancarão suas tábuas ao mar,
e vocês serão como essas tábuas
que boiam sem destino,
dispersos no mundo mais uma vez.
Pois o que é o sucesso senão o fracasso antecipado? Pois o que é ascensão senão a véspera da queda? Pois isto é o êxito: é esquecer-se da face íngreme pela qual se subiu e pela qual se descerá; é estar suspenso no ar sem se mexer; é perder ao ganhar; é o fim da esperança, que se tornou desnecessária; é herdar o tesouro à custa do irmão; é estranhar a antiga vizinhança; é cuspir no prato em que se comeu; é escarrar na boca que se beijou; é o eterno esquecimento; é cegar-se sem o saber; é faltar nostalgia à melodia; é ter pernas dormentes no meio do caminho; é enxergar com horror o osso onde se vê o rosto; é flertar com o Óbvio dali para frente; é se deparar com os operários das ruínas à sua espera; é avistar os vermes que lhe comerão os olhos; é o último gole antes da forca; é embriagar-se antes da festa; é achar-se quando o melhor era continuar perdido.
E todos esses acontecimentos se darão quando
o falsificado pesar o mesmo que o legítimo,
e o homem acordar todos os dias cansado pelo dia que começa,
e toda língua falar sem a ajuda do pensamento
e os olhos virem tudo que há para ver, sem a ajuda da imaginação,
e as formas literárias forem plenamente conhecidas,
Alguma coisa saída de outro tempo irá então se manifestar.
Como que por encanto, o mundo se recuperará da sua ressaca;
e um punhado de gente se agrupará como que por necessidade,
e eles serão como o enigma que afirma e não pergunta,
em uma língua que balbucia e para a qual ninguém pode dar uma gramática,
e múltiplos serão os seus apelidos,
e haverá luz à noite, de cores variadas,
e sol na neblina,
e parecerá que o arco do seu sentido não tem fim,
posto que cobre todo o futuro,
sem jamais declinar.
Mas então
se verá que não;
que o corpo que ascende encontra o repouso
e fica lá até o momento em que necessariamente desce;
que tudo que sobe começa já a desacelerar.
E quando
os homens tomarem o seu café da manhã
seguros de serem os campeões,
e o sucesso for sinônimo de inércia,
e os corações estiverem cheios de iniquidade,
e o menor entre os menores precisar se curvar para entrar,
e vocês criarem uma imagem de si,
os artistas serão gigantes de um olho só
e isso de nada lhes servirá
pois
os pensadores se repetirão,
e os poetas só recitarão os clássicos,
e o político parecerá cansado,
e o profeta gaguejará,
e entre vocês um se levantará,
proclamando a liderança,
e ele será o Rei do Natural
e o seu reino será a República do Impessoal,
e ela durará mil e quinhetos dias (só para começar),
e tudo será turvo e sujo e normal.
Logo chegará o dia em que, num rompante, tudo se emendará. Porque a novidade, num salto, virá se vingar. E o passado, que ronda e assombra, será novamente a matéria dos pequenos, e os seus mestres se sentarão para ouvi-los. E quando um deles se erguer para falar, o mundo sofrerá um abalo, porque a voz dele será como a voz do simples, que não finge a indiferença. E as obras mortas darão lugar às obras vivas, e entre amigo e amigo surgirá um lugar de encontro.
E oito serão os movimentos que se apresentarão: A proa; A popa; O estibordo; O bombordo; O casco; O mastro; O passadiço; O convés. E esta será a profecia da linha d’água, que separa as obras mortas das obras vivas.
Será ouvido por todos os cantos “Eu sou a Nau”, às vezes em grito, às vezes em sussurro. E, com efeito, a Nau será cada um de vocês, mas aquele que fizer da Nau um espelho de si mesmo viverá em erro. Atentem à isto: a imagem não mais corresponderá a nada que se faz em favor dos olhos ou da visão programada. A imagem estará à disposição de homens e mulheres como uma das novas projeções de vida; servirá de complemento ao Discurso, ao Sexo (que dá luz aos Filhos) e à Escolha do Modelo Morte. Nesse momento só a matemática e as novas ciências poderão explicar o mundo, e logo lhes darão valores e fonemas, para que os envolvidos na construção de um novo modelo de Universo possam simplesmente discutir em voz alta sem perder tempo.
Embora não convenha falar sobre as transformações das ondas ao redor da Nau, cumpre identificar o tsunami que a sua passagem provocará. Vasta, do tamanho do próprio mar, a grande onda se voltará contra a sua origem. Destruído o comando, só restará o que era praga. E após o levante, a Nau, reencarnará numa cria de ratos, cujo ninho, por todo canto sujo, servirá de abrigo vivo na madrugada.
Isso se dará quando a embarcação finalmente for uma ruína
e seus destroços, morada para as formas de vida inferiores,
a ninhada da ratazana terá sua vez,
de acordo com as leis inexoráveis da geração espontânea,
pois, como diz o homem experiente,
“há sempre espaço para o rato do navio”,
Um punhado desses se ajuntará,
contra a vontade do Natural
– que quer manter tudo disperso –,
e esse ajuntamento de ratos fará uso do navio
para além das necessidades de moradia,
como coisa que está abandonada
no aguardo de um uso que redima seu passado
e que insufle ânimo nas suas arcadas.
Esses ratos farão o que nunca se viu:
eles erguerão a Nau do seu lugar de assento,
e a fixarão como torre entre as casas do centro,
para o orgulho para uma geração inteira
que andava desabrigada e com o destino penhorado
e o Natural invejará a obra dos ratos,
pois ele só tem uma tarefa dia e noite:
a de manter o normal alinhado com o comum
e, para tanto, pune o imprevisto
com desprezo e difamação.
A Nau dos Ratos, contudo, sobreviverá ao Natural,
e naufragará tão somente no sítio donde partiu,
em função do próprio peso
multiplicado pela própria velocidade.
E diante da praia encontrada
os ratos se agitarão e praguejarão contra a obra do seu esforço
uns acusarão os outros da corrupção dos meios
e uns acusarão os outros do descuido da rota
e haverá pânico e ranger de dentes
pois o sol resseca-lhes a carne miúda
e não haverá refresco nem orvalho à noite
e eles se arrastarão antes de definhar
sobre os corpos soterrados dos que naufragaram antes
E vocês serão como o Rato.
Pois rato é chamado o salteador de bueiro, que aguarda a chegada da noite para se manifestar. É o mais inquieto dos animais. Dotado de um grande instinto de oportunidade, o rato sabe prosseguir por entre os escombros de uma civilização decadente que o ignora. O rato nem sempre sempre acerta, nem tem considerações desse tipo: segue apenas seu focinho e alcança os resultados, como os de hoje. Isso tudo que vocês veem é produto do rato, o industrioso!
E para aqueles que ainda desacreditam destas palavras, digo: antes que se adotem novos deuses, essas coisas se passarão, e vocês serão testemunhas vivas do que falo. Pois tudo o que começa já contém o seu fim, e os livros nunca nos chegam pela metade. Quando a primeira letra é lida, a última ressoa. Assim está escrito: a Nau que decola forçosamente tem de pousar. Os sobreviventes do voo não ousarão negar minhas palavras, pois deles será a nova partida. O restante se diluirá no mar, como pó um instante antes de ser precipitar no breu.
Em meio ao terror e à correria no escuro, os homens se voltarão para os seus ídolos de bolso, que nada lhes poderão esclarecer. Seus ídolos falharão, como que por falta de energia. Os homens se voltarão a seguir para os ídolos de mesa igualmente em vão, porque a casa não brilha se o quarteirão não tem luz. (E como terá luz o quarteirão se a cidade está nas trevas? E como a cidade sairá das trevas se o mundo vive um apagão?) E os ídolos serão esquecidos mediante a chegada dos novos modelos.
E quem são esses que se aproximam sem pedir licença? São os passageiros de um sinal no céu. São o estandarte da vitória antes da batalha. Carregam a arca de uma nova aliança entre o pequeno, o médio e o grande. São a nova forma da matéria batida. E com o que eles se parecem? Com o ladrão, cujo passo avança sem ruído; com o mal que antecede o bem por obrigação.
E quando a mão se ativer ao acionamento dos botões,
tendo se esquecido da sua destreza
e ninguém superar em conhecimento as respostas automáticas
e a fonte for a mesma, independente de quem pergunta,
nós saberemos com antecedência do grande resfriado que o mundo pegará.
Este será pois o dia da abertura! O que era dúvida se converterá em aventura; e o que era só intuição se transfigurará em formas determinadas. E como quem caminha entre estranhos numa festa, os habitantes desse espaço momentâneo conviverão com essas formas sem poder lhes dar nome. E haverá ruídos em abundância, contudo sem significação – mas os visitantes deles não se afastarão, pois esse será o dia da abertura. E se a indecisão fizer casa no coração do homem, ele se lembrará de perseverar, pois esse será o dia da abertura. E quando alguém requisitar a atenção do público, pelo tempo de uma ação misteriosa, este atenderá ao seu chamado, pois esse será o dia da grande abertura. E os desconhecidos se conhecerão e o anônimo se apresentará.
Digo assim o que vi, e é só o que eu sei dizer: sobre atormentados por imagens incompreensíveis e interpretadores de sonhos extintos, a Nau seguiu viagem.