Aplataforma 2014-03-06
Em toda forma de arte, é comum encontrar gêneros mais privilegiados. Assim como os retratos em meio às pinturas, os livros de artista merecem destaque entre as demais publicações. Incomum, no entanto, é o fato de alguns dos melhores livros de artista dos últimos anos remeterem ao mesmo endereço: o número 4 da Düstere Strasse em Göttingen, na Alemanha. Lá trabalha Gerhard Steidl, um homem determinado a produzir nada menos que livros extraordinários. Steidl é também o nome do seu estabelecimento: em suas palavras, menos uma gráfica do que um “laboratório”. Steidl forja nesse lugar, pelo menos desde 1972, edições de artistas como Roni Horn, Robert Frank e Ed Ruscha, bem como publicações sobre moda, fotografia e literatura. Convites e encomendas do mundo todo se avolumam na sua porta. Gerhard não faz segredo desse sucesso e manifesta: “O processo de fazer livros com Steidl é parecido com o da alta costura…”.

Com a mala abarrotada de provas e exemplares, Steidl visita seus colaboradores mundo afora. Mantém relações com alguns deles a décadas. A cada viagem, agenda uma bateria de encontros em que decisões são tomadas em questão de minutos. Com papel e caneta, começa um livro novo fazendo poucas perguntas. Com a ajuda de uma tesoura, define formatos e leiautes de imediato no local. Nada de longas conversas por e-mail ou horas diante de um computador a quilômetros de distância dos artistas. Steidl admite que viaja sobretudo para poupar tempo. É um homem de negócios.


A peregrinação desse publisher-editor-designer-impressor está registrada em filme. How to Make a Book with Steidl (2010) de Jörg Adolph e Gereon Wetzel acompanha a movimentação incessante desse sujeito de estatura mediana que, seja em um desfile da Chanel ou em um deserto do Catar, persegue intrépido toda oportunidade de fazer livros excepcionais.
Em sua busca por qualidade, Steidl não economiza esforços ou recursos: repudia enfaticamente os formatos e papéis “estandartizados”, o que invariavelmente torna seu trabalho cada dia mais difícil. Reconhece que “não há mais investimento na produção de papéis ou nos serviços de acabamento, de tal maneira que o futuro desse tipo de livro está ameaçado” – ameaça que se estende ao próprio saber-fazer “livros de alta costura”. Com o objetivo expresso de garantir a sobrevivência desse ofício em declínio, Steidl também se dedica a palestras e exposições sobre o conhecimento raro que acumulou.

Em um mundo em que os livros eletrônicos ganham espaço, o caminho escolhido por Steidl estreita. Isso, porém, não o preocupa: o surgimento dos eBooks só tornou mais clara a missão de uma editora que quer permanecer “100% analógica”. Por fim, a paixão de Gerhard deu origem a um modelo de negócios baseado exclusividade no papel impresso. É verdadeira então a recomendação bíblica: o caminho estreito é preferível ao espaçoso que conduz à perdição, pois com Steidl estão salvos os “pBooks – physical books, paper books ou apenas… books”.