felipekaizer

Tomemos um objeto da natureza: por exemplo, uma lâmpada – Pedro França (Paço das Artes, 2014)

ISBN 978-85-60919-29-1


Tudo o que pede a obra recente de Pedro França é para ser observada demoradamente. As duas caixas de luz compostas por quatro placas de acrílico, cujas camadas irregulares de grafite e cera obstruem a luminosidade interior, são um simples dispositivo para o olhar. Como qualquer outro dispositivo, a obra cumpre sua função. Para tal, porém, é obrigada a distinguir entre observadores curiosos e devotos. A sensação é a de que, à inspeção mais intrusiva, as placas recuam e preservam o mistério da sua constituição; enquanto, ao olhar daqueles que nada exigem em troca, oferecem uma infinidade de fenômenos visuais: no grafite sobre acrílico vê-se simultaneamente fotografias, gravuras, pinturas abstratas e decalques.

Essa variação de indícios não se produz, portanto, sem o bom comportamento dos presentes. Se não se opõem, a obra os conduz a um ponto privilegiado de observação, a poucos passos à sua frente. Esse é o ponto de fuga de sua perspectiva inversa – aquela nem geométrica nem atmosférica, cujo ponto se situa fora do plano visual, ou se se quiser, do lado de dentro da janela renascentista. Tal particularidade é em parte confirmada pelo uso de caixas desse tipo como elementos de cena em peças teatrais. Aqui, entretanto, Tomemos um objeto da natureza: por exemplo, uma lâmpada (2014) desempenha mais do que um papel cenográfico: instaura com essa inversão no campo visual um palco próprio, onde atua também o espectador. Estabelece-se aí entre a parte visível e a vidente um jogo de corpo, em que uma reage aos movimentos da outra. O jogo se encerra, no entanto, quando um olhar mais obsceno põe um pé fora do palco – a isso, a obra se esconde, tal como um diorama se desfaz quando visto de esguelha.

Mas a aqueles que perseveram no lugar da obra, retribui-se a dedicação. É-se capaz de meditar na sua presença como quem participa de uma paisagem. De fato, as caixas de luz de França manifestam a beleza natural encontrada somente nos sítios intocados pelo homem. Suas superfícies escoriadas confirmam essa contradição, visto que decorrem de uma série de representações em desenho de vegetações cerradas. Logo, não surpreende que a luminosidade das lâmpadas e do branco do papel sejam da mesma substância, pois ambas sugerem a mesma experiência: a de estar bloqueado pela mata brava, imobilizado talvez pelo pânico.

No Paço das Artes, porém, para-se voluntariamente para olhar. O trabalho de Pedro França demonstra como toda contemplação só ocorre com o auxílio de instrumentos. Nesse sentido, o artista esposa a fé (bizantina) de que é pelo artifício que se alcança a verdade. Prova-o sua prática de ateliê: em vez de se apropriar de backlights, as reproduz artificialmente. Mediante sua manufatura, dá vida a peças singulares ao mesmo tempo que altera o estatuto dos objetos os quais referencia. No instante em que expõe suas caixas, França transfigura o próprio gênero desses equipamentos: backlight se torna subitamente uma forma pura que, desprovida de toda conotação, pode então se tornar a fiel expressão do que há de inexprimível.

Os artefatos de França nada são, porém, sem a segunda transfiguração promovida pelos visitantes. Apesar de as caixas serem perfeitamente reprodutíveis e multiplicáveis, a obra só se transforma naquilo que é aos bons olhos do público. É porque os olhos não são a janela da alma, mas a lâmpada do corpo (Mateus 6:22) que suas telas se acendem e queimam. Ver é lançar chamas, como ensinavam os antigos; até mesmo a solidez e o peso das coisas é um atributo da visão. De acordo com essa lógica, sabe-se que o telescópio dos modernos nada mais fez do que estender o toque humano ao infinito. Entre os descendentes desse aparelho, alguns foram eletrificados, se multiplicaram e povoaram a terra, a ponto de ofuscarem o céu estrelado. As caixas de luz de Pedro França pertencem a essa genealogia da técnica, e o título que ostentam serve de lembrete: tomemos uma lâmpada como signo do triunfo da natureza sobre si mesma.