Texto produzido para a exposição Sala de Leitura com curadoria de Galciani Neves na Oficina Cultural Oswald de Andrade (São Paulo) em 2013 e no Sesc São Carlos em 2017.

Exposição no Sesc São Carlos, 2017.
Quando as tropas sitiam um povo, invadem as tecas que guardam seus livros e privam de gente a leitura em grupo, pois “grupo” não rima – jamais – com “exército”. Trancam por fora janelas e portas e tiram as letras da vista dos olhos, temendo também a voz’alta que salva o dom das palavras da morte das páginas.
Povo nenhum se esquece do bem usurpado, menos o mais bibliófilo: esse rejeita a paz decretada, mas volta pra casa, quieto. Recolhe-se. Vive daí das migalhas de texto que leva à noite pra cama, sozinho, e nem um ruído do quarto ao lado escapa daquele que chama de “próximo”.
Isso é lei entre gente doméstica. Gente pomposa e digna de nota, com raro olfato pra livros de bolso, mas cega e surda pra vida em público. Essas pessoas não leem nem cheiram; só põem o livro do dia em cima da mesa, ao lado da louça herdada, e dizem de si que exploram seu íntimo.
Logo, aos bons invasores, o crédito! Graças as forças armadas gentis essa gente livrou da baderna seus filhos e deu à nação eruditos e médicos. “Nada contém, entretanto, o grito vizinho ao pranto dos mudos d’espírito” – vi um rapaz escrever no muro, enquanto eu lia na rua intrépido.