felipekaizer

Aplataforma 2013-05-24

Design para um mundo complexo. Rafael Cardoso. Cosac Naify, 2012

Em 1971, Victor Papanek chocou seus colegas ao afirmar que “existem profissões mais prejudiciais que o design industrial, mas são poucas”. Nem todos os livros fazem amigos, é verdade, mas Design for the Real World se tornou – em pouco mais de dez anos – o “livro de design mais lido no mundo”. Traduzido para mais de vinte idiomas, sua mensagem era clara: num mundo abarrotado de objetos que mais pareciam “brinquedos para adultos”, o design perdia sua razão de ser.

Quarenta anos mais tarde, Design para o mundo real inspirou o título do recente livro do historiador Rafael Cardoso, publicado pela Cosac Naify. Design para um mundo complexo é o resultado de uma série de cursos ministrados por Cardoso entre 2007 e 2009. Carregado de exemplos – dos Arcos da Lapa a bombinhas para asma –, o livro expõe a necessidade de se repensar a prática e o ensino de design em função das mudanças ocorridas após o “degelo do modernismo”, na década de 1960. Ao retomar “a discussão do ponto em que ela foi deixada por Papanek”, Cardoso alerta que irá fazer a crítica dessas mudanças na “paisagem econômica, política, social e cultural”. Porém, a despeito das causas históricas dessas mudanças, existe um esforço nítido do autor para caracterizar conceitualmente o chamado “mundo complexo” – o que o leva, por consequência, a tratar não apenas do conceito de complexidade, mas também do de forma, beleza, função, significação etc.

Apesar de cada um desses conceitos já ter preenchido inúmeros volumes na história do pensamento ocidental, Cardoso passeia por eles com uma desenvoltura incomum. À própria definição de “complexidade” dedica-se pouco mais de uma frase, na página 25. Cardoso não pretende provar na teoria seu ponto – de que o design como prática deve mudar porque o mundo mudou –, mas incitar os projetistas a questionarem os pressupostos de suas práticas. No entanto, alguns problemas começam a surgir à medida que o leitor é obrigado a passar por uma série de exemplos históricos que tentam comprovar um argumento de natureza ontológica.

A transposição entre os domínios histórico e filosófico já aparece no primeiro grande exemplo do livro: os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. O estudo longo e minucioso dos usos, relatos e representações dos arcos culmina, surpreendentemente, numa questão ancestral: “se algo tão sólido e imóvel quanto os Arcos da Lapa está sujeito a tantas transformações e alterações de significado, o que dizer de objetos mais efêmeros?”. Ao equivaler a tangibilidade à solidez de significado – talvez diferentemente do que Marx pretendeu ao afirmar que “tudo que é sólido se desmancha no ar” –, é dada ao leitor uma formulação ainda muito primária de um problema que Heráclito de Éfeso já tinha proposto a cerca de quinhentos anos antes de Cristo: “no mesmo rio não há como entrar duas vezes”. A sensação que surge da leitura das próximas conclusões de Cardoso é a de que se está diante de tautologias, tais como: “a não ser que se tenha uma definição muito precisa daquilo que se entende por forma, um enunciado como ‘a forma segue a função’ não quer dizer nada”, ou ainda “o significado intrínseco da garrafa de champagne é simples e irredutível. Todo o resto seriam excrescências impostas ao artefato por sua manipulação e subversão. […] Uma garrafa é uma garrafa é uma garrafa? Se isso for verdade toda essa discussão é inútil”.

Devemos levar a sério a incapacidade do autor de chegar a novas sínteses. A hipótese para explicar a ocorrência dessas tautologias – que fazem com que “a discussão [pareça] estar longe do seu ponto de partida e caminhando célere em direção a lugar nenhum” – é a de que Cardoso não conclui nada de novo a partir de seus exemplos justamente em função do pouco tempo que dedica aos conceitos fundamentais com os quais está lidando. Sem refletir suficientemente sobre esses conceitos, seus exemplos acabam levando-o constantemente de volta ao ponto de partida. Porém, para além daquilo que o autor admite, podemos deduzir da convicção com que trata de ideias como significado e experiência, que ele se sente, apesar de tudo, assegurado por alguma autoridade para fazer suas afirmações. Assim, considerando que o texto não esclarece a origem desses conceitos, podemos especular de onde ele extrai a certeza para sentenciar sobre a memória ou a beleza, por exemplo. Logo, a segunda hipótese é a de que Cardoso é tributário da tradição empirista de pensamento representada por figuras como John Locke, e que a presença silenciosa desses pensadores se revela eventualmente em descrições como a da identidade como acúmulo de momentos do eu ou da experiência como subproduto das sensações – ambas presentes também nos escritos de David Hume.

Entretanto, onde se espera que Cardoso confesse abertamente sua filiação ao empirismo encontram-se apenas os apelos vagos ao senso comum. Essa omissão não deve ser entendida como um mero descuido do autor, mas como uma consequência da aceitação irrefletiva de uma série de pressupostos. Soma-se a isto a dificuldade dessa tradição de problematizar a natureza do fenômeno. Dificuldade que vem à tona toda vez que Cardoso tenta articular sujeito e objeto no processo de significação; o impasse entre a contribuição individual à experiência e o modo como os artefatos carregam significados se estende até o final do livro. Logo, essa “operação [dos artefatos materiais que] como signo foge do esquema consagrado pelos modelos semióticos tradicionais” jamais é esclarecida, tampouco o mecanismo de agregação de valor de mercado. É desse modo que o livro perde a chance de propor uma discussão mais séria acerca da complexidade atribuída ao nosso mundo. Ademais, seu viés historicista obriga o leitor desde o início a incorrer no erro comum de conceber a complexidade em termos de gradações ou etapas – como se o nosso mundo fosse mais complexo simplesmente por ter se seguido a um outro.

Papanek lecionando no Kansas City Art Intitute onde ele era chefe de design entre 1976 e 1981

Falta a Cardoso o poder de convencimento que nasce das experiências autênticas. Papanek também se valeu de exemplos com intuito de provar seus argumentos, com a diferença de que muitos deles advinham de mais de dez anos de profissão intensamente vividos. O grande mérito do livro de Papanek reside em problematizar o ato de projetar como um diálogo inteligente entre designers e consumidores. Talvez por isso suas críticas ao funcionalismo então vigente nos soem mais atuais do que as de Cardoso.