felipekaizer

Aplataforma 2013-07-25


Em 1878, o filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce lamentou nas páginas da Popular Science Monthly o mal que uma única ideia obscura poderia causar na mente de um jovem1. Como um obstáculo em uma artéria, tal ideia poderia fazer o cérebro padecer. Peirce se referia ao risco, na ciência, de se perseguir conceitos insuficientemente claros. Felizmente hoje, mais de 130 anos após o seu diagnóstico, os jovens parecem estar imunes a esse derrame das ideias. Afinal, não vivemos a paz dos tempos pós-ideológicos? Nossos males agora não são, ao contrário, a obscenidade e o cinismo? Portanto, não tenhamos a vergonha de perguntar mais uma vez “o que é design?”. Passadas as contendas do século 20, é chegado o momento de uma resposta derradeira, que ponha fim a questão.

“Qual é a sua definição de ‘design’, Monsieur Eames?”, pergunta Madame L’Amic ao designer norte-americano Charles Eames, em 1972. Assim se inicia a entrevista produzida na ocasião da exposição “Qu’est ce que le design?” no Museu de Artes Decorativas de Paris que repassa grande parte dos dilemas que assombraram os veteranos da história do design em 29 perguntas. Sem nenhum embaraço, Eames é sumário em suas respostas, a ponto de fazer com que as perguntas de Madame L’Amic pareçam inofensivas, para não dizer ingênuas demais para produzir qualquer tormento na cabeça de pessoas como William Morris ou Walter Gropius. Porém, quando algumas das questões mais intrigantes do século 20 aparecem sob a forma de verdades óbvias, é preciso desconfiar da própria forma dos questionamentos.

O perigo é que a obviedade das perguntas implique na simplicidade das respostas. Não se deve nunca esquecer que toda pergunta – mesmo aquela nascida da curiosidade sincera – também afirma e pré-determina o espectro das respostas possíveis. Monsieur Eames, contudo, parece confortável com as restrições impostas pelo teor das perguntas. Por isso o diálogo parece ensaiado, e as questões – que foram tão edificantes – se mostram estéreis e carentes de qualquer senso de realidade. Só se pode responder perguntas ingênuas com ingenuidade, o que torna pueril toda a discussão.

Mas, se a verdade é simples e autoevidente – como sugere a leitura de Peirce –, por que cultivar dúvidas? Não basta uma definição de design? Se definições em geral não satisfazem os impasses da prática cotidiana ou suscitam novos questionamentos, então a resposta é “definitivamente não”. Os mais inquietos encontram no máximo pistas interessantes nas respostas de Eames. Por outro lado, diante de uma definição insatisfatória, não há porque tentar responder às mesmas perguntas com outras respostas. Questionemos as próprias perguntas.

Por que, em primeiro lugar, precisamos de definições? Não é possível pensar para além dos limites pressupostos pelas perguntas? Quem se dá a liberdade para prosseguir na busca por algo sem a clareza daquilo que pretende alcançar? Alguém se deu essa liberdade. No trecho de um documentário de 1991, Otl Aicher, um dos fundadores da Hochschule für Gestaltung Ulm, exerce o direito de refletir à deriva.

Há um abismo intransponível entre os discursos do alemão e do norte-americano. No universo sugerido pelas colocações de Aicher, o diálogo entre Madame L’Amic e Mounsier Eames é uma pesquisa de telemarketing. Após as especulações do designer alemão, as fórmulas de Eames não dão mais conta, por exemplo, da relação turbulenta entre o design e a indústria ou da contribuição da experiência de projeto na formação de uma visão de mundo. As respostas de Eames são autoreferentes, por isso ele não está certo nem errado. Isso não é clareza, é vacuidade de pensamento ou, na melhor das hipóteses, uma confissão de fé. Apesar de todas as críticas que se possa fazer ao funcionalismo representado por Aicher, é Eames o dogmático fiel às limitações impostas por um sujeito oculto – sujeito este que poderia muito bem ser o capital financeiro que escolhe a dedo as condições sob as quais todos nós vivemos.

Só é possível criar uma correspondência entre os dois discursos imaginando que Aicher responde àquelas perguntas endereçadas a Eames com perguntas mais pertinentes. Apenas alguém mais acostumado a se indagar do que a responder aventa a possibilidade de que a morte empreste algum sentido ao projetar. Apenas quem tolera por mais tempo as dúvidas intrínsecas ao pensar pode duvidar com mais clareza. O restante sofre do mal de Peirce: crentes de que estão livres de qualquer ideologia, são reféns, sem perceber, da lógica de uma ideia.

Notas

  1. PEIRCE, Charles S. “How to Make Our Ideas Clear”. Popular Science Monthly 12 (January 1878), p. 286-302.