felipekaizer

Aplataforma, 2013-06-24

Há que ser dito: a realização da 10ª Bienal Brasileira de Design Gráfico, após um hiato de quatro anos, é um fato que merece ser celebrado. O número de visitantes na abertura da exposição no dia 14 de junho não deixa dúvidas.

No aplicativo gratuito para iPad, que procura substituir o catálogo impresso, é possível conferir os 444 projetos que 89 jurados selecionaram de 1.910 inscrições. Na primeira fase dessa seleção, 725 projetos foram escolhidos em ambiente virtual por 64 jurados (alguns estrangeiros), e 281 deles foram descartados posteriormente no julgamento presencial.

Bruno Porto, coordenador do júri, afirma no texto de apresentação que a Bienal é o “momento em que o design gráfico brasileiro reflete suas conquistas, discute os seus rumos e traça seus planos”. Cabe, então, refletir ao menos sobre o processo de seleção dos trabalhos e sua contribuição ao panorama do design gráfico nacional.

É preciso lembrar, em primeiro lugar, que o modelo de inscrição dos trabalhos determina o que encontramos na exposição. Em uma chamada aberta, os designers gráficos do Brasil inteiro foram convidados a submeterem seus projetos a um júri de notáveis com a expectativa de estarem no mapa do design nacional. Logo, o panorama do que melhor se produziu nos últimos quatros anos dependeu de inscrições voluntárias e de critérios de avaliação que não foram publicados com antecedência. Essa estrutura de salão – tão comum antes das práticas curatoriais – compromete o que podemos concluir dessa amostragem; isto é, não se pode garantir que os melhores projetos foram enviados, ou mesmo que haja a oportunidade de se debater esses critérios. Ao final, os comentários sobre os projetos destacados apenas confirmam a necessidade que se sente de se explicitar o porquê dessas escolhas.

Em segundo lugar, o volume de participantes indica que a Bienal de Design Gráfico cumpre, ao menos para grande parte dos profissionais, uma função importante. É inegável que os selecionados se beneficiam diretamente do efeito vitrine da Bienal. Esse efeito é potencializado pela presença de outros setores da sociedade no evento, como órgãos governamentais, empreendedores e gestores culturais. Talvez, por isso, mesmo com cerca de apenas 200 sócios, a Bienal da ADG consegue angariar um número cada vez maior de inscrições, o que nos leva a pensar que o grande interesse dos participantes é o de não ficar de fora. Assim, sustentada muito mais pelo espírito de competição do que pelo engajamento, a Bienal tem dificuldade de “refletir as conquistas, discutir os rumos e traçar os planos” do design nacional. Os debates no próprio evento tentam sanar essa dificuldade. Porém, eles não são suficientes: a crítica deve fazer parte da prática cotidiana.

A Bienal da ADG – que na sua 8ª edição passou a se chamar Bienal Brasileira de Design Gráfico – é ainda, contra todas as evidências, uma seleção que se autoproclama representativa. No entanto, é fundamental que se tenha em mente que toda seleção determina também o que deve ser esquecido. A Bienal tem o direito de definir quem faz parte ou não da história do design gráfico brasileiro? Não apostemos todas as fichas em único evento.