Microeudaimonias

Felipe Kaizer

[1] X e Y saem no final do filme. Y nauseia. X continua o trajeto, seguindo uma intenção vaga. Sentam para alguma distração, café por exemplo. Nenhuma palavra sobre X. Nenhuma palavra de Y. Um manto cobre por toda a parte. Y precisa fazer escapar um mensageiro, fazer chegar ao outro domínio o pulso de sua confissão. Y leva a mão por debaixo da mesa até X. Há uma queda súbita da telegrafia – X tem a mão morta. Y apela ao olhar. Y não apela mais.

[2] Recebi um cartão-postal de 2014. (Frente) O famoso daguerreótipo do Boulevard du Temple. (Verso) “Como provar que uma andorinha contém todo o verão? A luz é uma manifestação do ar, e o dia acende antes que o sol surja para aquecê-lo. Sem ar haveria apenas a noite alternadamente quente e fria. O dia não é homogêneo, e para cada adensamento (felicitação), encontramos seu corresponde rarefeito em outra região, chamada tediosa. “Melancholia” é o vento que se produz no sujeito peripatético, que vai de A a B sem se mover. Logo, a felicidade é um fenômeno metereológico resultante do traumatismo bárico de um dia. Porém, aqui temos, através de um mecanismo, um subproduto imóvel da densidade do ar: a densidade de luz.”

[3] Y e Z jantam. Y e Z se estranham com essa novidade. Z talvez não impressione, quer ver. Y ainda é jovem para o silêncio, poderia se inquietar. Mas as mãos estão sobre a mesa, e Z tem apetite. Não as toca – se as mãos forem boas, todo o corpo se acenderá. Come-se como se trepa. Z quer vê-la comer, cria no bom-olhado. Até Y reger seus talheres, sem maneirismos, nua como quem ensaia. Z frui, mas! as mãos se viram vistas e correm mudas para o colo.

[4] Não costumo, mas segui escadaria do metrô abaixo uma gaja tatuada “ελευθερία” nas costas. Ela estava sempre alguns degraus a frente, como ἐντελέχεια. Desisti e voltei à superfície. Cheguei em casa e dormi de porta aberta, com as roupas de um homem virtuoso da cintura pra cima. No sono era uma flauta. Eu soava três notas: θά-να-τος.

[5] Z e X dividem o taxi. Z tem o ânimo para os progressos dentários do taxista. X se deixa gelar pelo vidro aberto. Um coral pequeno agita os cabelos de X, um coral mínimo. Uma orquestra causa enjoo, a medida que defeca uma magnum opus – performam sem pudor com qualquer coisa: canhões, cavalos, vômitos. Z diz saber facetar um dente, e seu dom para escultura sobe adágio a nuca de X. E varia: lento, larguetto, largo, lento, adágio, andante! X reconhece essa graça – não é preciso mais do que cinco músicos para fazer gozar.